Um comerciante rico de Lyon, que havia amealhado parte da fortuna emprestando dinheiro a juros, prática então considerada pecado de usura, ouve um cantor de rua contar a história de um jovem que abandonou riqueza e noiva para viver pobre, como peregrino. A canção sobre Santo Aleixo toca fundo em Pedro Valdo e muda o rumo de toda a sua vida.
Valdo não dominava o latim o bastante para ler as Escrituras sozinho. Por isso, contratou clérigos de Lyon para traduzir os evangelhos e outros livros bíblicos ao franco-provençal, a língua falada na cidade, um passo raro na Europa do século 12.
Lendo o texto que Jesus dirige ao jovem rico, em Mateus 19:21, decidiu vender tudo o que tinha. Restituiu quem havia lesado com os juros cobrados nos negócios, deixou parte à esposa e, sem avisar a mulher, colocou as duas filhas pequenas no convento de Fontevrault. A esposa, contrariada com a decisão, chegou a recorrer ao arcebispo de Lyon contra o marido.
Por volta de 1170, passou a pregar nas ruas ao lado de outros leigos, os chamados Pobres de Lyon. Defendiam a pobreza voluntária, a leitura direta da Bíblia e o direito de qualquer crente, inclusive mulheres, de anunciar o evangelho sem ordenação clerical.
Em 1179, Valdo foi a Roma pedir aprovação ao papa Alexandre III, durante o terceiro Concílio de Latrão. O papa elogiou o voto de pobreza, mas proibiu a pregação leiga. Valdo desobedeceu, convencido de que calar o evangelho era pior do que contrariar a hierarquia.
A ruptura veio em 1184: o papa Lúcio III excomungou o grupo no Concílio de Verona, ao lado de outros movimentos considerados hereges. A condenação não tratava só da pregação leiga: os valdenses também rejeitavam a confissão obrigatória a padres, as orações pelos mortos e as indulgências, e negavam que só um padre ordenado pudesse consagrar a eucaristia de modo válido, posições que a Igreja via como erro doutrinário grave. Perseguidos, se espalharam pelos vales alpinos do Piemonte e pelo sul da França, buscando refúgio.
O próprio movimento se dividiu. Em 1205, os chamados Pobres Lombardos, que aceitavam trabalho manual dos pregadores, elegiam a própria liderança e tinham outra visão da eucaristia, romperam com Valdo, que os expulsou do grupo. As fontes não confirmam com certeza quando e onde ele morreu: a tradição mais citada aponta c. 1205 no Piemonte, mas alguns historiadores datam sua morte entre 1217 e 1218, possivelmente na Alemanha.
Os valdenses resistiram a séculos de perseguição e, no sínodo de Chanforan, em 1532, uniram-se formalmente à Reforma protestante que despontava na Europa. Ainda hoje existem como igreja, testemunho raro de fidelidade bíblica atravessando quase nove séculos.