Há pessoas que começam bem a vida e não terminam do mesmo jeito. É fácil julgar de fora, mas quem nunca viu o próprio coração se acostumar, aos poucos, com escolhas que no início pareciam pequenas, até perder de vista o que realmente importava?
Salomão era filho de Davi e Bate-Seba, escolhido para suceder o pai no trono de Israel (1 Reis 1:30). Logo no início do reinado, Deus apareceu a ele em sonho, em Gibeom, e perguntou o que ele desejava. Salomão pediu sabedoria para governar o povo e discernir entre o bem e o mal (1 Reis 3:9).
Deus se agradou do pedido. Além da sabedoria, deu a Salomão riquezas e honra como nenhum outro rei teria em toda a sua vida (1 Reis 3:12-13). A sabedoria logo apareceu em ação: diante de duas mulheres que disputavam um bebê, Salomão propôs dividir a criança ao meio e, pela reação da verdadeira mãe, descobriu quem mentia (1 Reis 3:16-28).
Foi Salomão quem construiu o templo em Jerusalém, o projeto que Davi sonhara e não pôde realizar (1 Crônicas 22:8-10). Por sete anos, uma equipe imensa de trabalhadores ergueu a casa onde a glória do Senhor viria habitar (1 Reis 8:10-11).
A fama do rei atravessou fronteiras: a rainha de Sabá viajou de terras distantes para testar sua sabedoria com perguntas difíceis e saiu maravilhada com o que viu (1 Reis 10:1-9).
Mas o mesmo coração que um dia pediu discernimento foi, aos poucos, se deixando desviar. Salomão casou-se com setecentas princesas e trezentas concubinas, muitas delas estrangeiras que adoravam outros deuses, e à medida que foi envelhecendo seu coração já não era totalmente dedicado ao Senhor (1 Reis 11:1-6). O rei que orou pela dedicação do templo terminou construindo altares para deuses estranhos nos montes ao redor de Jerusalém (1 Reis 11:7-8).
A história de Salomão não é a de um homem mau desde o início. É a de um homem sábio que não vigiou o próprio coração. Eclesiastes, tradicionalmente atribuído a ele, soa como a confissão de quem provou tudo o que o mundo oferece e descobriu que sobra vazio sem Deus no centro (Eclesiastes 12:13). Sabedoria não é imunidade: é o coração, dia após dia, que precisa continuar entregue a Deus.
