São Yared
505-571

Compositor · Hinógrafo

São Yared

Domínio público, via Wikimedia Commons · fonte

Resumo
Compositor e monge etíope do século VI, criador do Zema, o canto sacro da Igreja Ortodoxa Etíope, e do melekket, sistema de notação que preserva sua música até hoje. Sua obra moldou a liturgia etíope por quinze séculos e é venerado como santo pela Igreja Ortodoxa Tewahedo.
Quem foi
Biografia

Toda criança já ouviu, de algum professor, que “não tem jeito para os estudos”. É um peso que marca: a sensação de que a comparação com os outros já decidiu quem você vai ser. A história de Yared começa exatamente nesse lugar, e termina mostrando que Deus não mede um chamado pelo relógio dos homens.

Yared nasceu em Axum, no antigo reino cristão de Aksum, em 25 de abril de 505. Perdeu o pai ainda cedo e foi enviado para estudar com o sacerdote Abba Gedeon, mas não conseguia memorizar os salmos enquanto via os colegas avançarem.

Segundo a tradição da Igreja etíope, um dia no campo ele observou uma pequena lagarta tentando subir um tronco. Ela caía, recomeçava, caía outra vez, até alcançar o topo. Yared voltou aos estudos com a mesma persistência, e sua memória teria se transformado a partir daquele momento.

Ordenado sacerdote na Igreja de Nossa Senhora Maria de Sion, foi chamado à corte do rei Gebre Meskel, onde compôs os cantos que se tornariam o Zema, a música sacra etíope, organizada em três modos tradicionalmente ligados à Trindade: ge’ez, ezel e araray.

A tradição atribui a Yared também a criação do melekket, um sistema de sinais para ensinar as melodias de geração em geração, sem depender apenas da memória de cada mestre de canto. Estudiosos notam que a forma escrita desse sistema só aparece com clareza em manuscritos a partir do século XVI, o que sugere um longo desenvolvimento posterior à sua época.

A tradição narra ainda que, cantando diante do rei, Yared entrou em tal absorção que não percebeu quando a lança do soberano feriu seu pé. Comovido, o rei ofereceu qualquer recompensa; Yared pediu apenas permissão para deixar a corte e viver em retiro, dedicado à oração e ao ensino.

Retirou-se aos Montes Semien, onde formou discípulos e viveu em oração e ensino, até morrer em 20 de maio de 571, aos 66 anos. As Igrejas Ortodoxas da Etiópia e da Eritreia o veneram como santo, e seu canto segue vivo na liturgia diária, quinze séculos depois.

A vida de Yared lembra que o dom plantado num aluno considerado “fraco” pode se tornar a voz de uma igreja inteira por séculos. Onde outros viram apenas fracasso, um inseto subindo um tronco ensinou perseverança, e essa perseverança sustenta até hoje a fé e o culto de um povo.

Linha do tempo
505

Nascimento em Axum

Nasce em 25 de abril, no reino de Aksum, um dos mais antigos reinos cristãos da África.

Juventude

O episódio da lagarta

Ao ver um inseto tentar repetidas vezes subir uma árvore até conseguir, retoma os estudos das Escrituras que havia abandonado.

Juventude

Ordenação e ida à corte

Torna-se sacerdote na Igreja de Nossa Senhora Maria de Sion e é chamado à corte do rei Gebre Meskel.

Século VI

Composição do Zema e dos três modos litúrgicos

Cria o canto sacro etíope e define os modos ge'ez, ezel e araray.

Século VI

O incidente da lança

Absorto no canto diante do rei, não percebe que a lança do soberano lhe feriu o pé; em gratidão, obtém permissão para se retirar à vida monástica.

Século VI

Retiro nos Montes Semien

Deixa a corte para viver em oração, jejum e ensino.

571

Morte nos Montes Semien

Falece em 20 de maio, aos 66 anos; é aclamado santo pela Igreja Ortodoxa Etíope.

Hoje

Celebrado em 19 de maio

Seu dia é celebrado pelas Igrejas Ortodoxas da Etiópia e da Eritreia, e seu canto ainda molda a liturgia diária.

Obras e marcos

Criação do Zema

Século VI

Compõe o corpo de cantos sacros que se tornaria a música litúrgica oficial da Igreja Ortodoxa Etíope, organizada em três modos ligados à Trindade.

Invenção do melekket

Século VI (tradição)

A tradição atribui a Yared um sistema de notação musical mnemônica para preservar as melodias; a forma escrita conhecida, porém, só aparece em manuscritos a partir do século XVI.

Livro do Deggua (Digua)

Digua

Reúne hinos para os domingos e festas do ano litúrgico, tornando-se o principal hinário da tradição etíope.

Livro do Meraf

Meraf

Hinário com cantos para as grandes festas, orações diárias e o período de jejum.

Livro do Zemmare

Zemmare

Coleção de cantos executados após a celebração da Eucaristia.

Livro do Mewasit (Mawase'et)

Mewasit

Hinário com cantos fúnebres, usados nos ritos de sepultamento até hoje.

Contribuições
1

Fundação da música sacra etíope

Criou um corpo de cantos que passou a ser a espinha dorsal da liturgia etíope, ainda cantado sem grandes alterações depois de mais de mil anos.

2

Sistema de notação (melekket)

A tradição lhe atribui a invenção de sinais mnemônicos para ensinar melodias complexas com fidelidade, sem depender apenas da memória oral de cada mestre.

3

Formação de mestres do canto

Deu origem a uma tradição de escolas de canto e dança litúrgica que formam, até hoje, os debtera, cantores e escribas da igreja etíope.

4

Preservação do ge'ez litúrgico

Seus hinos ajudaram a manter viva a língua ge'ez como idioma sagrado de culto, mesmo depois de deixar de ser falada no dia a dia.

Legado missionário

Mostra que a música pode carregar a fé de um povo inteiro por gerações, princípio que missões em contextos orais aplicam ao traduzir hinos e Escrituras em canto local.

É exemplo de contextualização: em vez de importar formas estrangeiras de culto, gerou uma expressão genuinamente etíope da adoração cristã, referência para missões que buscam encarnar o evangelho em cada cultura.

Sua obra sustentou a identidade cristã da Etiópia através de séculos de isolamento e pressão externa, testemunho da resistência da fé onde a igreja vive longe de outros centros cristãos.

Continua inspirando cristãos etíopes e eritreus na diáspora, que levam o Zema como parte de sua identidade de fé aos lugares onde migram hoje.

Outras pessoas