1489–1556

Arcebispo · Reformador litúrgico · Mártir

Thomas Cranmer

Resumo
Arcebispo da Cantuária e principal arquiteto da liturgia reformada inglesa. Autor do Livro de Oração Comum, morreu na fogueira sob Maria I, um dos mártires de Oxford que selaram com a vida a Reforma na Inglaterra.
Quem foi
Biografia

Nascido em 1489 perto de Nottingham, na Inglaterra, Thomas Cranmer entrou ainda adolescente no Jesus College, em Cambridge, onde passaria quase três décadas como estudioso de teologia. Nada nele anunciava o destino de arcebispo que o esperava.

Em 1529, uma conversa sobre a anulação do casamento de Henrique VIII com Catarina de Aragão mudou seu rumo: Cranmer sugeriu consultar teólogos e universidades em vez de apelar só a Roma. A ideia agradou o rei e o lançou à vida pública.

Como embaixador na Alemanha, Cranmer conheceu o reformador luterano Andreas Osiander e, em 1532, casou-se em segredo com Margarete, sobrinha da esposa de Osiander, desafiando o celibato clerical ainda exigido na Inglaterra católica.

Consagrado arcebispo da Cantuária em 1533, declarou nulo o casamento real e, pouco depois, dissolveria também o de Ana Bolena, sempre a serviço da vontade de Henrique VIII. Sob Eduardo VI, porém, assumiu papel mais autoral na reforma da igreja inglesa.

Sua obra maior foi o Livro de Oração Comum, publicado em 1549 e revisado em 1552: um culto inteiro em inglês, de prosa cadenciada, que substituiu séculos de liturgia em latim e moldou a fé e a língua inglesas por gerações.

Cranmer também teve limites documentados. Em 1550 e 1551, participou da condenação de Joan Bocher e George van Parris, executados por heresia sob o mesmo regime que ele ajudava a construir, episódio que contrasta com o martírio que o próprio arcebispo sofreria anos depois.

Com a morte de Eduardo VI, Cranmer apoiou a tentativa de pôr Joana Grey no trono para impedir uma rainha católica. A ascensão de Maria I o levou à prisão; sob forte pressão, assinou diversas recantações, renunciando por escrito às convicções reformadas.

No dia da execução, surpreendeu a todos ao retratar publicamente essas recantações. Na fogueira em Oxford, estendeu primeiro a mão direita às chamas, a mesma que assinara os documentos, dizendo que ela havia ofendido antes de morrer com as palavras de Estêvão na boca.

“Esta mão ofendeu.”
Thomas Cranmer · Últimas palavras na fogueira, em Oxford, 21 de março de 1556, registradas no relato de John Foxe (Actes and Monuments, o "Book of Martyrs")
Linha do tempo
1489

Nascimento em Aslockton

Nasce em família de pequena nobreza rural perto de Nottingham, na Inglaterra.

1503

Ingresso em Cambridge

Entra no Jesus College, onde estuda teologia por décadas.

1529

Sugestão sobre a anulação real

Propõe consultar teólogos e universidades sobre o casamento de Henrique VIII, chamando a atenção do rei.

1532

Casamento secreto com Margarete

Casa-se em Nuremberg, na Alemanha, com a sobrinha da esposa do reformador Andreas Osiander.

1533

Consagração como arcebispo da Cantuária

Torna-se o primeiro arcebispo protestante da Cantuária e anula o casamento de Henrique VIII e Catarina de Aragão.

1549

Publicação do 1º Livro de Oração Comum

Introduz a liturgia inteiramente em inglês nas igrejas do reino.

1550-1551

Condenação de dissidentes por heresia

Participa da sentença que leva Joan Bocher e George van Parris à fogueira.

1553

Prisão sob Maria I

Apoia a sucessão de Joana Grey; com a ascensão de Maria I, é preso por traição e heresia.

1556

Recantação pública e morte na fogueira

Após anos de pressão e recantações, retrata-se publicamente e é queimado em Oxford em 21 de março.

Obras e marcos

Anulação do casamento de Henrique VIII e Catarina de Aragão

1533

Como recém-consagrado arcebispo, declarou nulo o primeiro casamento real, ato que selou a ruptura da Inglaterra com Roma.

Prefácio à Grande Bíblia

1540

Escreveu o prefácio da primeira Bíblia em inglês autorizada para uso nas igrejas paroquiais.

Livro das Homilias

1547

Coleção de sermões oficiais para padronizar a pregação reformada nas paróquias inglesas.

Livro de Oração Comum (1ª edição)

1549

Primeiro livro de culto inteiramente em inglês, unificando a liturgia da Igreja da Inglaterra.

Livro de Oração Comum (edição revisada)

1552

Versão revisada e mais claramente reformada do livro litúrgico, base das edições anglicanas posteriores.

Os 42 Artigos

1553

Declaração doutrinária que daria origem, sob Elizabeth I, aos 39 Artigos da fé anglicana.

Contribuições
1

Liturgia em língua vernácula

Fixou o culto cristão em inglês comum e compreensível, encerrando séculos de liturgia restrita ao latim.

2

Prosa litúrgica duradoura

O inglês cadenciado do Livro de Oração Comum moldou não só a devoção, mas a própria língua inglesa por gerações.

3

Base doutrinária do anglicanismo

Os 42 Artigos que redigiu deram fundamento teológico reformado à Igreja da Inglaterra, revisados depois nos 39 Artigos.

4

Acesso às Escrituras em inglês

Como autor do prefácio à Grande Bíblia, defendeu que o povo lesse diretamente o texto sagrado nas paróquias.

Legado missionário

O princípio de liturgia e Escritura na língua do povo, consolidado por Cranmer, tornou-se modelo para o trabalho de tradução em missões ao redor do mundo.

O Livro de Oração Comum viajou com a expansão da comunhão anglicana, moldando o culto de igrejas em dezenas de países e línguas até hoje.

Seu testemunho na fogueira, ao lado de Latimer e Ridley, os chamados mártires de Oxford, tornou-se símbolo de fidelidade sob pressão para cristãos perseguidos em todo o mundo.

Outras pessoas