Poucas pessoas mudam de rumo de vida por um único momento de convicção. William Chalmers Burns tinha dezesseis anos e já estudava Direito como aprendiz em Edimburgo quando sentiu o que descreveu como sua alma sendo atravessada por dentro, como por um dardo. Logo depois, caminhou trinta e seis milhas até Kilsyth, onde a família morava, para contar aos seus que abandonava os planos de Direito e seguiria para o ministério.
Nasceu em 1815, na aldeia de Dun, filho do pastor William Hamilton Burns. Formou-se em Aberdeen e estudou teologia em Glasgow, sendo licenciado a pregar em 1839, aos vinte e quatro anos. Naquele mesmo ano, substituindo o pastor Robert Murray M’Cheyne em Dundee, começou a atrair multidões.
Em julho de 1839, pregando na igreja de seu pai em Kilsyth, viu estourar um reavivamento que logo se espalhou para Dundee e por boa parte da Escócia. Nos oito anos seguintes, percorreu Inglaterra, Irlanda e Canadá como pregador itinerante, enfrentando apedrejamentos e multidões hostis sem deixar de pregar ao ar livre.
Em 1847, tornou-se o primeiro missionário da recém-formada missão da Igreja Presbiteriana da Inglaterra, embarcando de Portsmouth rumo a Hong Kong. Passou a viagem estudando cantonês e, ao chegar, viveu com famílias locais para aprender o idioma e os costumes do povo.
Os primeiros anos na China foram de trabalho árduo e poucos frutos: em Cantão, passou dezesseis meses quase sem resultado visível, e mais tarde reconheceu, em cartas, o desgaste espiritual do contato diário com um ambiente marcado pelo ópio e pela idolatria.
Em 1855, em Xangai, conheceu o jovem Hudson Taylor. Os dois tornaram-se amigos próximos e viajaram juntos rumo a Swatow. Seguindo o exemplo de Taylor, Burns passou a vestir trajes chineses a partir de dezembro daquele ano, buscando reduzir o alvoroço das multidões e aproximar-se do povo comum.
Taylor reconheceria depois em Burns um mentor espiritual, marcado pela oração constante e pela simplicidade radical. Essa convivência ajudou a moldar princípios que, anos mais tarde, dariam forma à Missão para o Interior da China.
Ao longo de vinte e um anos como missionário na China, Burns voltou à Escócia apenas uma vez, entre 1854 e 1855, ficando pouco tempo junto à família antes de retornar à Ásia. Historiadores da missão também observam que seu estilo extremamente itinerante, sem paróquia fixa e sem plano de longo prazo, deixou poucas estruturas eclesiásticas organizadas, ao contrário de missionários mais voltados à construção de igrejas e instituições locais.
Burns passou seus últimos anos em Pequim e depois na Manchúria, ainda traduzindo hinos e o livro O Peregrino para dialetos chineses. Morreu em Newchwang, em abril de 1868, aos cinquenta e três anos, longe da família, pedindo que fosse sepultado com as roupas chinesas que vestira por mais de uma década.