Antes de ser lembrado como missionário, Charles Thomas Studd foi manchete nos jornais esportivos da Inglaterra vitoriana: astro do críquete, disputou pela seleção inglesa a partida de 1882 que deu origem às Ashes. Poucos anos depois, abriu mão da fama e de uma fortuna herdada para viver como missionário sem salário garantido.
Nascido em 1860 em Spratton, na Inglaterra, cresceu numa família enriquecida pelos negócios do pai na Índia. Ainda em Eton, por volta de 1878, converteu-se ao ouvir um pregador visitante, mas reconheceu mais tarde anos de fé morna. Já em Cambridge, após a morte do pai e a doença grave de um irmão, viveu uma crise de consciência que o levou, em 1882, às reuniões do evangelista americano D. L. Moody, ocasião em que assumiu um compromisso mais sério com Cristo.
Em 1885, ao lado de outros seis universitários, integrou o grupo que ficou conhecido como Cambridge Seven e embarcou para a China sob a China Inland Mission de Hudson Taylor. Ao herdar a fortuna do pai, doou quase tudo a obras cristãs, entre elas o instituto de D. L. Moody e o orfanato de George Müller.
Na China, casou-se com a missionária irlandesa Priscilla Stewart, com quem teve quatro filhas (dois filhos morreram ainda bebês). Doença forçou o casal a deixar o país em 1894: Studd passou seis anos viajando pelos Estados Unidos e pela Grã-Bretanha, convocando universitários para as missões, antes de pastorear uma igreja de língua inglesa em Ootacamund, na Índia.
Já maduro e de saúde frágil, sentiu-se chamado à África central, então quase sem presença cristã. Em 1913, contra o conselho médico e a vontade da esposa adoentada, partiu para o interior do Congo Belga ao lado do futuro genro Alfred Buxton, chegando a Niangara e dando início à Heart of Africa Mission, mais tarde rebatizada Worldwide Evangelization Crusade. Em 1922, a sede da missão foi transferida para Ibambi, onde Studd viveria até o fim da vida.
Os dezoito anos seguintes não foram isentos de sombras. Seu estilo de liderança rígido e autoritário provocou conflitos com colaboradores, inclusive com o genro Alfred Buxton, que acabou rompendo com ele para servir em outra frente missionária. O casal viveu a maior parte desse tempo separado: Priscilla permaneceu na Inglaterra até morrer, em 1929, tendo revisto o marido apenas uma vez, numa breve visita ao Congo em 1928, depois de cerca de dezesseis anos morando em continentes diferentes. Nos últimos anos, Studd também recorreu à morfina para suportar dores crônicas, algo que gerou controvérsia entre seus colaboradores.
Morreu em Ibambi em 1931, aos setenta anos, ainda à frente da obra. Anos antes, ao ser questionado sobre seu compromisso com o sacrifício pela fé, dera a frase pela qual ficaria conhecido: se Jesus Cristo é Deus e morreu por ele, nenhum sacrifício seria grande demais.
A missão que fundou segue ativa em dezenas de países, sustentada pelo mesmo princípio de viver por fé, sem campanhas de arrecadação. Sua vida permanece como convite a medir o custo do discipulado sem meias medidas, mesmo quando o preço inclui a própria fragilidade humana e as fraturas que o zelo, sem humildade, pode abrir nos relacionamentos mais próximos.