Imagine ver, três vezes na mesma noite, uma família recusar a única ajuda disponível, sabendo que cada recusa custaria uma vida. Foi isso que Ida Scudder viu aos vinte anos, na Índia, e essa lembrança nunca mais a deixou.
Ida nasceu em 1870 em Ranipet, na Índia, filha e neta de médicos missionários americanos. Cresceu entre dois mundos, o conforto dos Estados Unidos e a pobreza do sul indiano, sem imaginar que herdaria a vocação da família.
Em 1890, hospedada na casa dos pais em Tindivanam, recebeu três homens na mesma noite, cada um pedindo socorro para a esposa em trabalho de parto. Por costume religioso, nenhum aceitou que um médico homem, seu pai, atendesse as mulheres. As três morreram antes do amanhecer.
Abalada, decidiu estudar medicina e nunca mais voltar atrás dessa escolha. Formou-se pela Cornell University Medical College em 1899, entre as primeiras mulheres aceitas pela escola, e retornou à Índia pouco depois, já como médica formada.
Em 1900 abriu um pequeno dispensário de um leito em Vellore; em 1902 inaugurou o Mary Taber Schell Memorial Hospital, com quarenta leitos. Em 1918 fundou uma escola de medicina só para mulheres, formando as primeiras médicas indianas.
Nem tudo foi consenso, nem para ela mesma. Nos anos 1930 e 1940, uma nova exigência do governo e a queda no número de alunas ameaçaram fechar a escola. Por anos, a própria Ida relutou em aceitar abrir o curso também a homens, por temer trair o chamado original de formar médicas para mulheres. Só por volta de 1943 aceitou a mudança. Antigas apoiadoras, entre elas Lucy Peabody, discordaram e romperam com a instituição. O conflito se arrastou até a escola tornar-se, em 1947, o Christian Medical College para os dois sexos.
Ida viveu para ver a instituição crescer e formar gerações de médicos e enfermeiras indianos, homens e mulheres lado a lado. Morreu em 1960, em Kodaikanal, depois de seis décadas dedicadas à saúde das mulheres mais pobres da Índia.
Sua história lembra que o cuidado com o corpo pode ser um caminho concreto do evangelho. Hospitais e escolas de medicina cristãs ao redor do mundo ainda seguem o padrão que ela deixou: tratar cada paciente como alguém amado por Deus.