Muita gente só reconhece a grandeza de alguém depois que ela se vai. Os elogios sinceros chegam tarde demais, quando já não fazem diferença para quem morreu. Foi assim com um oficial romano encarregado de supervisionar mais uma execução, num dia que parecia igual a tantos outros.
Ele era centurião, o comandante de cerca de cem soldados no exército romano, um homem acostumado a cumprir ordens sem questionar. Naquela sexta-feira, sua tarefa era garantir que três condenados morressem na cruz, entre eles um homem chamado Jesus, condenado por blasfêmia pelo tribunal religioso judeu (Mc 14:64) e crucificado sob a acusação romana de se dizer rei dos judeus (Mc 15:26).
Da posição em frente à cruz, ele acompanhou tudo de perto: os insultos da multidão, o silêncio digno do condenado, a escuridão que cobriu a terra ao meio-dia (Mc 15:33). Quando Jesus soltou um forte brado e expirou, o véu do templo se rasgou em duas partes, de alto a baixo (Mc 15:37,38).
Mateus acrescenta que houve um terremoto, o bastante para aterrorizar o centurião e os soldados que vigiavam com ele (Mt 27:54). Foi então que ele disse a frase que o eternizou: “Verdadeiramente, este homem era o Filho de Deus!” (Mc 15:39). Lucas registra a mesma cena com outra ênfase: “Verdadeiramente este homem era justo” (Lc 23:47).
Um soldado pagão, treinado para tratar César como senhor supremo, declarou sobre um judeu crucificado exatamente o que os discípulos de Jesus ainda hesitavam em admitir em voz alta. Ele não tinha formação religiosa nem histórico com as Escrituras, só olhos abertos para o que acabara de presenciar.
Pouco depois, Pilatos o chamou de novo, agora para confirmar oficialmente que Jesus estava morto antes de liberar o corpo para sepultamento (Mc 15:44,45). O mesmo homem que comandou a crucificação também confirmou, com sua palavra, que ela havia se cumprido.
Essa confissão continua incômoda hoje. Muita gente cresce dentro da fé e demora a enxergar o óbvio, enquanto alguém de fora, sem nenhuma vantagem espiritual aparente, reconhece a verdade primeiro. A cruz continua expondo quem está disposto a ver o que está bem diante dos olhos.