1489–1565

Reformador · Pregador

Guillaume Farel

Resumo
Reformador francês que implantou o protestantismo na Suíça de língua francesa, com pregação enérgica e conflitos que lhe renderam tantos convertidos quanto inimigos. Ficou conhecido, sobretudo, por persuadir João Calvino a permanecer em Genebra em 1536, decisão que mudaria o rumo da Reforma protestante.
Quem foi
Biografia

Algumas pessoas carregam uma urgência que incomoda todo mundo ao redor, mas que também move montanhas. Guillaume Farel foi assim: um pregador de voz estridente e coragem que beirava a imprudência, incapaz de ficar calado diante do que considerava erro.

Nascido em 1489 em Gap, no sudeste da França, foi para Paris em 1509 e estudou sob o humanista Jacques Lefèvre d’Étaples, que o aproximou das cartas de Paulo. Por volta de 1521 abraçou a causa da Reforma, ainda incipiente em terras francesas, e rompeu de vez com Roma nos anos seguintes.

Perseguido, fugiu para Basileia, Estrasburgo e outras cidades suíças, pregando com uma energia que lhe rendia tantos convertidos quanto inimigos. Ao longo de mais de trinta anos de ministério itinerante, foi espancado, quase afogado, alvo de uma tentativa de envenenamento e de um tiro que falhou por acidente na própria arma do atirador.

Seu zelo tinha um lado sombrio. Em Genebra, um sermão seu antecedeu um tumulto que destruiu altares, imagens e órgãos na catedral de São Pedro em 1535, e em Neuchâtel sua repreensão pública a uma nobre quase provocou um motim contra ele mesmo.

Em 1530 conduziu Neuchâtel a adotar oficialmente a Reforma, por um estreito voto popular, e em 1536 Genebra fez o mesmo. Foi ali, num verão decisivo, que Farel convenceu o jovem João Calvino, de passagem pela cidade, a ficar e assumir o trabalho pastoral que ele mesmo não conseguia sustentar sozinho.

Expulsos juntos de Genebra em 1538 por conflitos com o conselho da cidade, Farel se fixou em Neuchâtel como pastor até o fim da vida. Aos 69 anos, casou-se com Marie Torel, uma refugiada huguenote com menos de 20 anos, cerca de cinquenta anos mais nova que ele. Calvino reprovou abertamente a união, chamando-a de contrária à ordem da natureza e chegando a tentar, sem sucesso, obter sua anulação, o que abalou por um tempo a amizade dos dois reformadores.

A vida de Farel lembra que a coragem para confrontar o errado nem sempre vem acompanhada de mansidão, e que Deus usa vasos imperfeitos para abrir caminhos que outros completam. Sem ele, é possível que Calvino jamais tivesse ficado em Genebra.

Hoje, quando um cristão insiste com um amigo relutante para não recuar de um chamado difícil, ecoa, ainda que sem saber, o gesto ousado de Farel diante de Calvino: a convicção de que certas urgências não podem esperar por circunstâncias ideais.

Linha do tempo
1489

Nascimento em Gap

Nasce na região do Delfinado, sudeste da França.

1509

Estudos em Paris

Torna-se aluno do humanista Jacques Lefèvre d'Étaples, que o aproxima das cartas de Paulo e da doutrina da justificação pela fé.

1521

Rompimento com Roma

Abraça as ideias da Reforma nascente e deixa a prática católica romana.

1524

Expulsão de Basileia

Publica teses contra a doutrina romana tão duras que até Erasmo pede sua expulsão da cidade.

1530

Reforma em Neuchâtel

Sua pregação leva a cidade suíça a adotar oficialmente o protestantismo, por estreita votação popular.

1532

Início do trabalho em Genebra

Começa a pregar na cidade sob a proteção de Berna, ainda sem apoio oficial das autoridades locais.

1536

Genebra adota a Reforma e recruta Calvino

O conselho da cidade declara apoio ao protestantismo, e Farel convence João Calvino, de passagem pela cidade em julho, a permanecer e ajudar na obra.

1538

Expulsão de Genebra

Farel e Calvino são banidos após conflitos com o conselho da cidade; Farel se estabelece em Neuchâtel.

1565

Morte em Neuchâtel

Morre em 13 de setembro, exausto após viajar no inverno para pregar aos protestantes de Metz.

Obras e marcos

Le Pater noster et le Credo en françoys

1524

Primeiro texto da Reforma publicado em língua francesa, abrindo caminho para a literatura protestante fora do latim.

Summaire et briefve declaration

1529

Primeira exposição sistemática da doutrina reformada em francês, usada para instruir os primeiros protestantes francófonos.

Reforma de Neuchâtel

1530

Sob a pregação de Farel, a cidade suíça adota oficialmente a Reforma protestante, por estreita votação popular.

La maniere et fasson

1533

Primeira liturgia reformada em língua francesa, com a ordem de culto e de batismo que Farel usava em suas igrejas.

Recrutamento de João Calvino

1536

Convence o jovem teólogo, de passagem por Genebra, a ficar e assumir o trabalho pastoral da cidade.

Disputa de Lausanne

1536

Debate público que ajudou a conduzir, decisivo para levar a região de Vaud à Reforma.

Ministério em Neuchâtel

1538

Torna-se o primeiro pastor reformado da cidade, que seria o centro de sua atividade pelos 27 anos seguintes.

Contribuições
1

Implantação da Reforma na Suíça francófona

Levou o protestantismo a Neuchâtel, Genebra e à região do Léman, preparando o terreno onde a teologia reformada se consolidaria.

2

A permanência de Calvino em Genebra

Ao reter Calvino em 1536, viabilizou a obra que definiria o rumo do protestantismo reformado nos séculos seguintes.

3

Literatura reformada em língua francesa

Escreveu entre os primeiros textos doutrinários e litúrgicos protestantes em francês, ampliando o alcance da Reforma além do latim erudito.

4

Formação de uma geração de pregadores

Formou e influenciou reformadores como Pierre Viret, ajudando a espalhar o movimento pelos cantões de língua francesa.

Legado missionário

Sua insistência para que Calvino não recuasse de um chamado difícil ilustra um princípio repetido hoje: muitos que hesitam diante da missão precisam de alguém que os confronte com urgência.

A tradição reformada que ajudou a lançar em Genebra alimentou, séculos depois, movimentos missionários protestantes que levaram o evangelho a outros continentes.

Seu compromisso com a pregação e a literatura na língua do povo antecipa um princípio essencial das missões modernas: comunicar o evangelho na língua que as pessoas realmente entendem.

A disposição de arriscar a vida em terreno hostil, sendo espancado e ameaçado sem desistir, continua como exemplo para quem serve em campos missionários difíceis hoje.

Outras pessoas